A tela ergue-se como um grito visual contra a corrupção e a escalada do poder. Rostos alongados e fragmentados, de inspiração cubista e expressionista, dominam a cena. Um legislador de olhos vazios, um juiz de martelo negociável e um soberano coroado de sorriso artificial compõem o teatro do poder. As formas cruzam-se em ângulos cortantes, como peças quebradas de um jogo político. A paleta reduzida, vermelho, preto, branco e cinzas, intensifica a tensão. O vermelho pulsa como sangue e raiva; o preto e o cinza evocam a decadência institucional. Uma urna marcada com o símbolo do dinheiro e moedas insinuadas sugerem votos comprados. Martelos e pergaminhos de leis surgem como instrumentos manipulados.
No centro, uma figura perturbada encarna a sociedade manipulada e silenciosa. A composição densa e claustrofóbica revela uma alegoria crua do poder corrompido.
Chamam-lhe alta política,
Mas cheira a podridão;
Entre tachos e compadres,
Vende-se logo a nação.
Distribuem-se os cargos,
Como fichas num balcão;
Aos viciados do costume,
Sem pudor nem direção.
Entram amigos à mesa,
Todos eles “essenciais”;
Currículos muito magros,
Mas os bolsos… todos iguais.
E as urnas? Torradeiras!
Queimando o voto ao azar;
O jogo já vem viciado,
P’ra nada poder mudar.
O juiz está bem comprado,
O sistema é só encenação;
Grita o mimado de turno,
P’ra distrair a atenção.
O mérito aqui é pecado,
A ética é só sermão;
Isto não é um Governo,
É mesmo uma ocupação.
Mutes

